Já não tenho mais a necessidade antiga de parecer bem. Por trás de mim estou eu – e sou tudo que meus olhos revelam, descaradamente. Não mudo mais o tom da voz, não disfarço, minha maquiagem é simples. Falo o que tenho vontade de falar, pondero um pouco apenas para não causar constrangimento excessivo, mas discorro sobre qualquer tema sem tantos filtros. Não vou parecer o que não sou, para que não se alimente a ilusão de permanência de um personagem que não sustentarei mais tarde. Por isso se não me sinto bem, aviso; se não quero comer japonês, anuncio; se não estou disposta a ouvir som alto essa noite, deixo claro. Sou eu, inteira, que vou – e não quero estar perto de ninguém que se satisfaça apenas com meus pedaços ou disfarces.
Sim, eu tenho muita coisa bacana para contar de mim. Tenho um milhão de histórias, posso provocar bilhões de risos. Mas é que na hora que eu precisar chorar, você vai encarar minhas lágrimas e ponto final. Nunca mais vou sorrir disfarçando qualquer vontade de chorar. Não nos meus espaços privados. Nos que são públicos, por questão de sobrevivência, ainda preciso de algum disfarce.
Admito minha humanidade sem nenhum pudor. Eis-me aqui, com todo o meu luxo e meu lixo – com toda a minha luz e a minha sombra. Eu nunca vou te contar todas as minhas virtudes sem sinalizar os defeitos. Eu jamais vou mentir e isso vai te assustar. Minha sinceridade tem me incomodado a mim mesma, mas não vou abrir mão dela nunca mais. Sinto muito.
Entendo o quanto isso filtra ainda mais o meu caminho, o quanto afunila minha estrada. Eu sei exatamente o preço que tenho que pagar por ser quem sou, e estou aprendendo dia-a-dia a lidar com isso. Encaro meu olhar no espelho e me fito sem vergonha de ser quem sou, porém. Isso vale tudo. Compensa todas as escolhas que fiz.
Não deixo mais na sua mão a possibilidade de escolher se quer caminhar comigo. Agora, sou eu quem escolho. Também trago a consciência do quanto isso me distancia de todos e o quanto isso é um fardo – ao tempo que é meu bálsamo. Mas eu simplesmente não abro mão de ser eu, com todo o meu pulso e com todo o meu fogo – com toda a terra e todo o ar – todo o risco e todo o dilema.
Esse paradoxo que me constitui, através do qual me revelo desnuda e inteira, é tudo que preciso ser. Aparo as arestas que me incomodam porque tenho metas claras para me tornar melhor, dia após dia. Mas não, não serei perfeita. E esse pacote inteiro, meu amigo, é tudo o que eu tenho para oferecer. E não mais com a mesma inocência de antes, porque o tempo nos endurece mesmo. Se quiser o que escondi dentro, se esforce para quebrar minha casca.
Será mais difícil, eu sei. Mas essa é a minha escolha. Voar pelo céu solitário até que haja um encontro que faça sentido. Do lado, só gente que sabe voar. Das coisas rasas eu fico só com aquilo de que me alimento. O resto está alto. E é para lá que eu vou, se quiser me buscar.
Inicio meu longo vôo solitário até recuperar minha força e voltar com penas novas. Isso acontecerá, cedo ou tarde. Minha força de fênix permanece aqui, intacta.
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