terça-feira, 19 de outubro de 2010

Tom Marcelino

Toda vez que entrava no msn, e o via online, automaticamente lembrava das tantas conversas que tínhamos por lá. Era assim depois que me mudei para São Paulo.

Resgatávamos nossa amizade através de altos papos virtuais. Acompanhei bom pedaço da sua jornada à distância. As histórias de auto-descoberta, a vontade de ser melhor, a necessidade de ajudar o outro sempre, o amor imenso, a intimidade com as palavras, a inquietude natural de quem tem alma de artista e não consegue parar. Ele tinha com a vida uma relação de amor muito íntima e eu o admirava demais por isso. Até nos seus tropeços, que foram tão parecidos com os meus, ele se encontrava. Achava sempre um atalho para si. Eu adorava dividir com ele as descobertas, as paixões, as reflexões. Nossos papos eram profundos, intensos. Com ele eu conseguia, como poucos, estabelecer um nível de diálogo visceral e necessário. Há anos não o abraçava e não conseguia encontrá-lo pessoalmente. Hoje eu senti muita raiva ao descobrir que isso nunca mais acontecerá de novo.

Soube da morte dele através de Paula Berbert, outra grande amiga que tínhamos em comum. Há muitas histórias nossas. Entre nós. Eu já fui apaixonada por Tom. Era impossível não se apaixonar por um cara como ele. Não lembro com precisão se algum dia contei isso para ele, com todas as letras. Sei que ele viveu muitos amores, muitas paixões. Como eu também vivi. E que dividíamos essas histórias com a cumplicidade do vínculo que teríamos para sempre, indissolúvel: o de amigos. Durante todos os minutos desse dia passam mil filmes na minha cabeça, dos mil e um encontros que tivemos. De todas as festas, de todos os papos. Lembro com clareza do dia que o pai dele faleceu, em como senti por estar longe, e o quanto me esforcei para fazer a dor dele passar um pouco contando da minha própria dor – da história de perder meu pai. Conversamos longamente sobre a morte, sobre os vínculos que não se dissolvem com ela, sobre a perenidade do amor sincero e puro. Falamos muito sobre a vida, sobre aproveitar melhor os instantes em que estamos aqui. Ele me contou como foram os últimos dias com seu pai – o tanto que eles conseguiram se aproximar e o quanto isso foi sua redenção.

Admirava profundamente aquele moço que vi se tornar homem. Profundamente. Talvez ele nunca saiba o quanto. Toda vez que entrava no MSN, por vezes com pressa, ensaiava lhe dizer o quanto sentia saudade. Toda vez que ia passear em Salvador e não nos encontrávamos, achava que teria logo uma nova chance e isso aconteceria. Hoje eu sinto uma raiva imensa de não ter insistido, de não ter arrumado tempo, de não ter percebido que todas as pessoas que estão aqui agora podem não estar mais no instante seguinte – e devemos curtir a companhia delas SEMPRE.

Observo as minhas escolhas e vejo que perco muito tempo com coisas muito pequenas. Deixo passar as que são importantes. Tive vontade, hoje de manhã, de pegar o primeiro ônibus rumo a Campinas ver a Mércia. Porque há quase quatro anos eu vim morar em SP e se a vi duas vezes foi muito. Porque nossas vidas são sempre corridas e as prioridades sempre outras. Mas Mércia, como Tom, são pedaços essenciais da história da minha vida. Não aproveitá-los enquanto estão aqui é um desleixo sem tamanho. Não cuidar deles me traz agora uma sensação péssima de que não fui boa o bastante para estar mais perto. Tom, que também tinha um vínculo especial com Mércia, eu não verei mais nessa vida. Nem online, nem nos luaus no prédio dele, nem na praia, nem em lugar nenhum. Tom passou, e eu o deixei passar sem lhe dizer tudo o que deveria. Sem lhe dizer o quanto ele me ensinou a ser mais gente, a ser mais humana, a ser mais amável, a ter mais fé. Tom me inspirava com sua poesia cotidiana e com suas atitudes elevadíssimas. É um desses seres que não pertencem a esse mundo. Que a gente chora e sente quando parte. Que queria ter perto mais tempo.

Minha alma está de luto e meu coração está moído por causa da morte trágica e ridícula do meu amigo, cuja moto chocou-se contra um poste e o fez morrer eletrocutado essa madrugada, aos 32 anos.

Lembro da última vez que nos falamos. Eu tinha sonhado com o pai dele me dizendo que estava tudo bem do lado de lá, para ele ficar tranquilo. Lembro do quanto meu sonho mexeu com ele.

Quero sonhar um dia com Tom. Para que ele me diga a mesma coisa: “Rafa, está tudo bem do lado de cá”. Eu quero saber que o pai dele o recebeu de braços abertos e com o seu amor imenso, que o coração dele está tranquilo e a dor não existe mais. Quero abraçá-lo pela última vez e dizer que a última grande lição que ele me deixa é tão preciosa quanto toda a sua existência: a vida é muito curta. Em como ele mesmo disse um dia, “Apesar das imperfeições, ou por conta delas, a vida é mesmo bela. Belíssima na verdade. Amo!”

Descansar? Não, meu amigo. Você seguirá sendo incansável na busca pela vida. E eu sei que há mais vida aí onde você está agora. Um dia estarei aí contigo, estaremos todos juntos. E contaremos essas histórias de desencontros, partidas e despedidas, às vezes tão doloridas, que somos obrigados a aprender a lidar por aqui. Porque, ainda parafraseando você, e agora suas palavras me tocam de um jeito ainda mais profundo: “um barco que viaja apenas em mares tranquilos não aprende a domar o revolto e não percebe a felicidade da calmaria”. Que haja calmaria aí desse lado. E que sua alma, banhada em amor profundo, permaneça por perto da gente iluminando a escuridão e nos oferecendo o que é tão seu: paz.

6 comentários:

  1. olá, parabéns pelas lindas palavras, sei exatamente o que vc esta sentindo, pois sinto o mesmo...O Tom, tinha o dom nos deixar apaixonadas, uma pessoa mais que especial na minha vida.Minha vontade era mesmo de poder abraça-lo, de estar proximo a cada minuto, pessoa fantastic...e muito amado por todos.Eterno amigo, sentirei muita falta, mais sei q cada lembrança sua será inesquecível, sei q irei falar de vc para meus filhos, meus netos...amo vc Tom, jamais esquecerei de ti!

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  2. Rafa,

    Não sei se vai se lembrar de mim, nos conhecemos há tantos anos atrás, numa época de encontros gostosos regados sempre a conversas inteligentes, interessantes. Numa época em que eu e Xande nos encantamos por sete amigos que sonhavam com arte e comunicação. E que eu nem era ainda mãe de dois adoráveis menininhos!

    Mas os caminhos misteriosos da vida me trouxeram até essa página hoje. Fiquei sabendo agora, de forma indireta e sem nenhum esclarecimento, que Tom estava morto. Atônita, comecei a procurar alguma informação na internet mesmo, no google, e uma das primeiras coisas que encontrei foi o seu texto. Esse lindo texto.

    Queria te agradecer imensamente por tê-lo escrito. Me tocou de forma profunda e me emocionou de verdade. Há muito eu não falava com ele, mas a notícia de sua partida, quase da minha idade, com um filhotinho pequeno também, me deixou arrasada e sem palavras como costumamos ficar diante desses grandes mistérios. Por isso mesmo eu te agradeço pelas suas palavras: sábias, delicadas, certeiras. Palavras de quem sabe amar. Me fizeram parar um instante e repensar e re-sentir.

    Abraco grande pra você, cheio de solidariedade e carinho.

    Dany Leal

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  3. Amiga,
    sim:
    você disse a ele, com todas as palavras, que já havia sido apaixonada por ele um dia.
    Eu estava na hora!

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  4. Rafaela, era você que trabalhava com o Tom na W4?? que fazíamos os programas de rádio da Moema Gramacho??? fiquei estarrecido com o que aconteceu com o Tom... hoje moro em Brasília e fiquei sabendo há pouco...

    Vítor.

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  5. Rafaela,

    assim como a Dani, agradeço por suas palavras esclarecedoras, pois moro em Recife e sou uma dessas amigas distantes do TOM. descobri ontem o ocorrido e fiquei sem saber o que realmente ac. Obrigada pelas palavras!!!!

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